| Nunca
o mundo necessitou tanto de um pensamento
renovador, de uma nova filosofia de ação como
nesta época em que o processo histórico se
acelera de maneira estonteante e tudo se faz não
através da evolução progressiva mas através
de bruscas explosões arrasadoras. É esta a
característica fundamental da nossa época: a
sua brutal carga explosiva e o desencadear
sucessivo de múltiplas explosões em todos os
setores das atividades humanas. Vivemos a era das
explosões: a explosão atômica, a explosão
industrial, a explosão demográfica, a explosão
psicológica dos povos oprimidos, a explosão da
juventude em completa oposição à geração
pré-atômica. Sempre a explosão aguda e
violenta, agindo como um processo de destruição
criadora, modelando a nova civilização
tecnológica na qual somos todos inevitavelmente
arrastados por bem ou por mal e para o bem ou
para o mal, pois se trata de uma revolução
universal e de certa forma desprovida de qualquer
ética e de qualquer ideologia. A tecnologia
passou a ser em nossos dias a teologia do
Ocidente.4 A
tecnologia não é boa nem má. É a sua
utilização que lhe dá sentido ético. Se nos
países do Terceiro Mundo a tecnologia age contra
os povos subdesenvolvidos é porque foi utilizada
unicamente para produzir o máximo de vantagens e
lucros para os grupos da economia dominante.9
O Terceiro Mundo está sob a
ameaça permanente de ver introduzidos tipos de
desenvolvimento tecnológicos que, desdenhando a
dimensão ecológica, podem provocar uma
desagregação total de sua estrutura. Se
levarmos em conta a relativa fragilidade de
alguns ecossistemas equatoriais e tropicais, onde
se agrupa a maior parte dos países do Terceiro
Mundo, este perigo adquire maior gravidade ainda.9
Os países subdesenvolvidos que
lutam pela sobrevivência devem se preocupar com
os problemas do meio e do desenvolvimento em
escala mundial, para se defenderem das agressões
que seu próprio meio sofre há séculos por
parte das metrópoles colonialistas, destruidoras
da condição humana nas áreas subdesenvolvidas.9
Poucas regiões do mundo se
prestam tão bem para um ensaio de natureza
ecológica como a do Nordeste açucareiro, com
sua típica paisagem natural...teve o Nordeste a
vida do seu solo, de suas águas, de suas plantas
e do seu próprio clima, tudo mudado pela ação
desequilibrante e intempestiva do colonizador,
quase cego às consequências de seus atos, pela
paixão desvairada que dele se apoderou, de
plantar sempre mais cana e de produzir sempre
mais açucar.2
Eis porque os países
subdesenvolvidos estão preocupados com os
problemas ambientais e da poluição. Eles estão
preocupados porque o subdesenvolvimento que
sofrem é a secreção de um tipo de
desenvolvimento, concebido sem respeito pela
Natureza e no qual o Homem não passa de um
instrumento da produção.13
A poluição é uma
doença universal que interessa a toda
humanidade, mas existem tipos de poluição
diferentes no mundo inteiro. Os países ricos
conhecem a poluição direta, física, material,
a do ambiente natural. Os países
subdesenvolvidos são presas da fome, da
miséria, das doenças de massa, do
analfabetismo. O Homem do Terceiro Mundo conhece
essa forma de poluição chamada
"subdesenvolvimento". E devo dizer que
esta é a forma mais grave, mais terrível de
todas.13
O meio não é apenas o
conjunto de elementos materiais que, interferindo
continuamente uns nos outros, configuram os
mosaicos das paisagens geográficas. O meio é
algo mais do que isso. As formas das estruturas
econômicas e das estruturas mentais dos grupos
humanos que habitam os diferentes espaços
geográficos também são partes integrantes
dele.9
Desse ponto de vista o meio
abrange aspectos biológicos, filosóficos,
econômicos e culturais, todos combinados na
mesma trama de uma dinâmica ecológica em
transformação permantente.9
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Eis
porque é preciso, ao mesmo tempo, rejeitar a
idéia de uma interrupção do crescimento
enquanto houver necessidades a satisfazer e, ao
mesmo tempo rejeitar um tipo de desenvolvimento
sem objetivo (exceto o do lucro) e modos de
produção que poluem e degradam a vida e o meio
ambiente.13 A
estratégia que considerava a realidade social do
Terceiro Mundo separada do mundo como totalidade
foi fatal para a melhoria das condições do
meio. Toda a biosfera é um só ecossistema
composto de múltiplos subsistemas.9
Insisto na necessidade de
esclarecer bem esta natureza do
subdesenvolvimento. Não se trata de uma simples
ausência ou insuficiência de desenvolvimento.
Não: é um produto - um produto negativo - do
próprio desenvolvimento. O desenvolvimento traz
consigo, de um lado, suas riquezas, suas novas
fabricações e, de outro, seus dejetos. O
Terceiro Mundo está no lado dos dejetos.13
Como a poluição é um
problema universal, seria bom discutí-lo em
âmbito internacional. Na verdade, as poluições
dificilmente podem ser combatidas por
regulamentações nacionais. Se um país tiver a
coragem de aplicar sozinho toda a
regulamentação necessária, sua produção logo
cessaria de escoar-se a preços competitivos e
ele logo iria a falência. É preciso obter uma
regulamentação em escala mundial. Então, os
delegados à Conferência de Estocolmo atacaram o
problema
mas, veja bem, não o resolveram.
E, sobre questões essenciais - a guerra e os
armamentos, entre outras - as discussões andaram
em círculos, como era de ser prever. Todos nós
sabemos que o melhor que se pode obter de um
quadro assim é uma boa recomendação
que
cada país, depois, tem a liberdade de adotar ou
não.13
Para dominar realmente o
problema do meio ambiente, seria preciso, além
de uma ampla consulta geral indispensável, a
autoridade de um "governo mundial", ou
, se a expressão o incomoda, de uma instância
planetária soberana a ser definida. Apesar de
tudo, na falta desta, é preciso tomar medidas
indispensáveis. .13
Acalento essa esperança. Hoje
a poluição constitue essa razão suficiente
para que finalmente o mundial obtenha as suas
primeiras vitórias sobre o nacional.13
A julgar pela disposição
dos movimentos independentes de caráter
globalista e eco-políticos, o apelo
lançado por Josué de Castro há 20 anos
encontrará solo fértil para florescer,
na Rio-92. A próxima Conferência sobre
o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio
de Janeiro, será o estuário para onde
convergirão propostas que estarão muito
à frente daquilo que seja aceitável
pelos governos e pela participação
oficial dos estados-nação ali
representados.
Maurício Andrés
Ribeiro (presidente da
FEAM/MG-Fundação Estadual do Meio
Ambiente de Minas Gerais- e da Fundação
Cidade da Paz) - Jornal do Brasil,
19/08/9113 |
Nós não
podemos passivamente esperar o futuro, pois,
assim, seremos esmagados por ele. O homem de hoje
tem que criar o seu futuro. Já não podemos
ficar como espectadores. Não podemos ser mais os
homens de pensamento e de ciência, simples
teóricos da acepção grega da palavra.11
Nem capitalismo nem comunismo,
mas uma outra coisa. Um dia é possível que a
sociedade em conjunto se constitua como organismo
único. Mas, para isso, é preciso que seja
condensada em torno de um pensamento comum.11
É imprescindível
retransformar a economia de guerra em que vivemos
numa economia de paz, e utilizar a enorme
poupança que resultar do desarmamento parcial na
obtenção de um tipo de desenvolvimento
pacífico mais igualitário e não poluidor.9
(1992) -
Capítulo 27
Um dos principais desafios que a
comunidade mundial enfrenta na busca da
substituição dos padrões de
desenvolvimento insustentável por um
desenvolvimento ambientalmente saudável
e sustentável é a necessidade de
estimular o sentimento de que se persegue
um objetivo comum em nome de todos os
setores da sociedade. |
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